9788416510153A mais importante história de super-heróis que os fãs nunca leram
 
Quando em 1982 o editor da revista inglesa Warrior decidiu relançar Marvelman, um super-herói da Idade de Ouro dos comics ingleses, um de muitos clones do Super-Homem que surgiram nesses distantes anos 50 (e neste caso, um sucedâneo inglês do Capitão Marvel/Shazam da Fawcett Comics), poucos seriam os leitores capazes de imaginar a importância e o impacto que essa nova série do herói britânico teria na história dos comics de super-heróis.

Dez Skinn, o histórico editor da revista, confiou a personagem a um jovem escritor, que viria a ser dos mais importantes argumentistas da banda desenhada moderna, e que relançou o herói de uma maneira original e radical: pegou nas personagens, trouxe-as para o então actual ano de 1982 e transformou-as em algo novo, mais negro e realista, mais ousado, colocando as perguntas que se tornariam no grito de guerra do “revisionismo”, a corrente dos comics que queria tornar as histórias de super-heróis mais realistas e mais integradas num universo mais próximo da nossa realidade. O que aconteceria se os super-heróis existissem no mundo real? Qual o seu impacto no dia-a-dia desse mundo? Até onde se poderiam levar as consequências dessa existência no mundo real?


A verdade é que os leitores de comics de super-heróis devem ter sofrido um choque ao ler esta história. Pegando nas personagens, e no seu passado algo inocente, simples, meio trapalhão até, como era típico das histórias dos anos 50, o argumentista conseguiu criar verdadeiros momentos de dissonância cognitiva, introduzindo, por exemplo, uma violência hiper-realista raramente vista naqueles tempos. Aos poucos, depois de um primeiro capítulo que segue apesar de tudo as convenções típicas de uma história de origem de poderes super-heróicos, começam a adensar-se elementos e pormenores que nos mostram que já não estamos na típica saga de super-heróis ingénua e maniqueísta, que em última instância acaba por nunca afectar o mundo à sua volta.

Se algumas histórias mainstream já tinham abordado temas políticos e sociais, e tinham começado a apontar esses caminhos mais realistas e mais negros – por exemplo, as histórias de Denny O'Neill e Neal Adams do Lanterna Verde e do Arqueiro Verde, ou algumas sagas do Homem-Aranha que punham o foco sobre os problemas da droga, o surgimento de uma personagem como o Justiceiro, ou a fase de Chris Claremont nos X-Men, tão mais realista do que o comum dos comics da altura – em Miracleman essas transformações tornam-se ainda mais intensas e mais revolucionárias. Logo na primeira história, alguns dos vilões aparecem como pessoas com individualidade própria, a mulher do herói é mostrada nua, numa abordagem bem mais madura à vivência conjugal, e ao longo dos capítulos seguintes somos também lentamente levados a entender a fundamental diferença entre as outras personagens daquele mundo, e o herói...Miracleman (que nesta altura ainda se chamava Marvelman) claramente não é humano, e a história irá lentamente enfatizando essa característica. E, numa sequência bem cómica, o próprio género dos super-heróis e o lado ridículo das origens dos heróis são colocados em questão, quando Liz Moran não consegue impedir-se de rir ao ouvir o seu marido, Miracleman, contar como tinha adquirido os seus poderes (a história contada era a original dos anos 50)... tal como qualquer pessoa normal não pode deixar de se rir da maioria das histórias de origens de super-heróis... picadas de aranha radioactiva... bombas de raios gama... genes mutantes de esquilos...

E há a violência, tão mais brutal naqueles primeiros capítulos do que tudo o que se tinha lido até então. Como quando o vilão da história atira um bebé (um bebé!) a velocidades supersónicas contra um prédio distante, para distrair o herói. Este consegue salvá-lo, mas a desaceleração do bebé é tão súbita, que quando Miracleman o devolve à mãe na vinheta seguinte, esta fica horrorizada, o bebé ficou com vários ossos fracturados. Ou quando o vilão derrete o crânio de uma jovem secretária que se meteu no caminho dele (e a história tem o cuidado de nos dizer quem ela é, quais as suas esperanças, quem é o namorado dela...). E as inovações ir-se-iam sucedendo ao longo dos números: o nascimento do bebé de Liz Moran e de Miracleman obrigaria a editora a colocar uma menção na capa a avisar de um conteúdo “de cena muito gráfica de nascimento”, que na altura chocou algumas sensibilidades mais puritanas; o número 15 da série, com as suas impressionantes cenas de destruição às mãos do super-vilão da história, foi considerado na altura por muitos críticos como o comic mais graficamente violento de todos os tempos. Ou, para citar um elemento mais suave e menos intenso, mas totalmente contra a tendência da época, a cena em que Liz Moran questiona o facto de dormir com um super-herói, e de chegar a dizer “Dormir contigo parece...errado. Parece bestialidade, como se eu fosse algum tipo de animal, e tu fosses... não sei, de uma espécie superior”. Estávamos muito longe dos cânones vigentes na altura para as histórias de super-heróis...

A verdade é que, depois de duas décadas de abordagens modernas aos super-heróis, depois de O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Authority, de tantas séries negras, violentas, que desconstroem o género dos super-heróis, é difícil hoje entender até que ponto Miracleman foi na altura revolucionário, e até que ponto foi uma influência imensa sobre uma geração de escritores de banda desenhada. Miracleman foi o primeiro de uma série de obras “revisionistas” que puseram em questão todos os clichés e características das histórias de super-heróis. Na sequência de Miracleman, O Regresso do Cavaleiro das Trevas, Watchmen, ou histórias como Batman Ano Um ou Piada Mortal, escritas por autores inovadores como Frank Miller ou Alan Moore, estabeleceriam o cânone deste revisionismo. O revisionismo aplicava a psicologia real ao universo dos super-heróis, com resultados nem sempre agradáveis, que iam da violência excessiva, da subversão social e política à psicose e sociopatia. Infelizmente, os comics mainstream das grandes editoras parecem ter, a certa altura, esquecido a inteligência do revisionismo – a introdução de personagens com personalidades desenvolvidas e complexas, a integração da história numa realidade mais próxima daquela que os leitores conheciam e os argumentos coerentes – e guardado apenas o seu tom negro e a sua violência extrema.

Mas até nisso Miracleman foi revolucionário e abriu caminho a um novo entendimento do género super-heróico, com as suas raízes no mito e na lenda. De certo modo, juntamente com Watchmen, Miracleman pode ser visto como uma exploração daquilo que pode acontecer num mundo povoado de super-heróis, se levarmos até às últimas consequências a sua existência. Onde é que tudo pode acabar? O que pode sair dali? Em Watchmen, a resposta é negativa, encapsulada na frase emblemática Quem vigia os guardiões? - o mundo de super-heróis acaba na destruição total, no apocalipse, fruto de uma verdadeira “corrida ao armamento”, deixa de haver espaço para contar mais histórias... Em Miracleman, a resposta é mais optimista. Indo um pouco contra a tendência frequente em outras narrativas do Escritor da história, a verdade é que, por uma vez, o poder absoluto parece não corromper absolutamente, e a história acaba num mundo ideal e utópico... mas em que, mais uma vez, deixa de haver espaço para continuações. Ou não?

A história da edição de Miracleman foi conturbada e complexa, razão pela qual a série acabou por se tornar menos conhecida na história dos comics. Depois de ser lançada nas páginas da Warrior entre 1982 e 85, a história acabaria por ser suspensa, em parte por desentendimentos entre o Escritor e o editor Dez Skinn, em parte sob ameaças legais por parte da Marvel, que levaram a que se mudasse o nome para Miracleman (um nome que já tinha sido usado anteriormente pelo criador Mick Anglo). Skinn viria a licenciar a série à editora americana Pacific Comics, e depois à Eclipse, que viria a completar a história, contratando o mesmo Escritor da fase da Warrior. Ao longo de todos estes anos, foram muitos os desenhadores que passaram pela série, e muitos deles viriam a tornar-se em nomes maiores da banda desenhada. Durante a fase britânica, a série foi desenhada inicialmente por Garry Leach, e logo depois por Alan Davis. A Eclipse mais tarde contratou Chuck Austen para continuar as histórias que foram editadas nos Estados Unidos, que seria substituído por Rick Veitch e depois por John Totleben. Nunca é de mais referir o extraordinário trabalho que Totleben criou para Miracleman, patente nas incríveis planificações e no traço hiper-detalhado do Livro 3 - basta olhar para a as páginas 390-391, e ver o seu desenho para uma das cenas mais brutais, mais violentas de sempre na história dos comics de super-heróis, para perceber o nível que Totleben atingiu neste livro. E isto apesar de ter desenvolvido uma grave doença da vista na altura, que praticamente o cegou.

Finalmente, o Escritor original de Miracleman conseguiria acabar a história no #16 editado pela Eclipse. E tudo poderia ter ficado por aí... Mas a série tinha sido prometida a Neil Gaiman por ele, e, em 1990 a Eclipse lançou o primeiro número desse novo arco de história. Gaiman tinha ficado com o papel ingrato de contar histórias que se passavam numa utopia, e soube desenvencilhar-se com elegância. Mas a história seria interrompida pela falência da Eclipse em 1994, e, embora pudesse ter sido continuada por outra editora, os acontecimentos conspiraram para mergulhar Miracleman nas sombras e no esquecimento. Em 1996, Todd McFarlane, então no auge da sua nova Image, comprou todos os bens da Eclipse, incluindo as propriedades intelectuais, e recusou quaisquer pretensões de Gaiman sobre a personagem, chegando a utilizá-la nalguns dos seus produtos. Mas Gaiman sempre lutou pela propriedade dela, e em 2002, processou McFarlane para a recuperar. Em parte, as histórias que Gaiman escreveu para a Marvel nos anos 2000 (1602 e Os Eternos) serviram para financiar esse processo e abriram as portas à parceria entre o escritor e a Casa das Ideias. A Marvel adquirira finalmente, em 2009, os direitos sobre a série, possibilitando a sua reimpressão – e permitindo que ela fosse também levada até ao fim, algo em que Gaiman está neste momento a trabalhar.

E assim, os fãs têm a oportunidade de ler por fim uma das mais importantes histórias de super-heróis de sempre. Ironicamente, Miracleman foi revolucionário no início, como primeiro grande exemplo de comic revisionista, mas seria também revolucionário na sua segunda fase, no final dos anos 80, como um dos primeiros comics a anunciar o reconstrucionismo  - na palavra feliz de Kurt Busiek, quando
inaugurou a sua série Astro City - definido como um regresso sem necessidade de justificações ou remorsos aos super-heróis positivos, que se afasta do lado negro e realista, por vezes extremamente violento, dos comics revisionistas. Miracleman abraça esse reconstrucionismo, tornando a história em algo mais que uma saga de super-heróis, e levando-a para o plano da discussão política e social sobre a utopia, dentro de uma estrutura de certo modo de ficção-científica. Mas isso vinha já do início, se olharmos para aquela que tinha provavelmente sido a intenção do Escritor original, em 1982. Falámos da estupidez e da inverosimilhança da explicação que Miracleman deu à sua mulher Liz sobre as origens dos seus poderes, a mesma estupidez que a maioria das histórias de super-heróis possuem nesse campo. Mas de certo modo, isso não era nada de novo, e era uma das razões que levavam a que os comics não fossem levados a sério. Na verdade, ao expor assim as falhas dessas histórias mais antigas, o Escritor original estava a homenageá-las e a redimi-las, porque nos mostrou que as histórias de super-heróis podiam ser mais inteligentes, mais sensíveis, mais adultas, sem terem de renegar aquele lado infantil e despreocupado que existe nelas. Podiam crescer, continuando a ser a mesma pessoa. E esse será sempre o grande legado de Miracleman, que poucos conseguiram seguir: pegar nas histórias meio ingénuas e parvas das revistas de super-heróis da nossa infância, e mostrar que era perfeitamente possível integrá-las completamente numa nova história que assinalasse a entrada do super-herói numa idade adulta, que fosse a continuação e evolução lógica da infância, sem a esquecer ou negar.

José Hartvig de Freitas